O que significa sermos um Ser Espiritual?

Ao longo dos últimos anos tenho dedicado algum do meu tempo ao estudo teórico e prático de algumas correntes filosóficas, espirituais e holísticas onde tive a oportunidade de conhecer várias pessoas com interesses semelhantes que também têm estado envolvidas nestes aspetos da realidade.

No processo de aprender com os outros e com as suas experiências enquanto partilho o que sei, o que sinto e o que tenho vindo a experienciar, tenho tido a oportunidade de observar alguns clichés, erros e ideias deturpadas.

Assim sendo, decidi expressar aqui a minha limitada (pelo o facto de ser minha) experiência e visão das coisas.

A inspiração facilmente se torna num obstáculo

Após um despertar espiritual é bastante comum entrarmos em conflito connosco próprios, com os outros e com o pouco que vamos conseguindo enxergar da situação atual do mundo que nos é apresentado. Na maior parte das vezes, as pessoas recorrem a certas correntes filosóficas, religiosas e/ou espíritas para daí conseguirem obter uma sensação apaziguadora, um reconhecimento de que não estão a vivenciar esse processo sozinhas e que muitas outras personas passaram e passam por situações e sensações semelhantes.

Na minha experiência pessoal não foi diferente e esse despertar resultou numa transformação intensa nas profundezas do meu Ser onde os meus valores, objetivos, sonhos, interesses e crenças foram sendo totalmente remodelados.

Para validar a minha experiência e as sensações internas que me prendiam toda a atenção, tive a necessidade de aprofundar o meu conhecimento e estudo de teorias filosóficas que sustentavam alguns dos “ismos” disponíveis como o Budismo, Taoismo, Hinduísmo e Xamanismo.

Inevitavelmente, surgiu o interesse por querer saber mais sobre a vida de alguns seres que, durante séculos, inspiraram e guiaram a humanidade no seu rápido e desenfreado crescimento e desenvolvimento.

Essa viagem começou por ser super interessante e enriquecedora pois estava a inspirar-me na vida, nas capacidades e valores de seres como Siddhartha Gautama (Buda), Yeshua (Jesus Cristo), Mãe Maria, Laozi (Tao-Tze), Kuan Yin e grupos de seres como Kryon e outros. Procurei seguir os seus passos, as suas práticas e as suas técnicas mas de nada servia para abafar ou anular os registos que fui criando em mim desde que nasci ou talvez até de vidas anteriores à que tenho hoje.

Pensava que o celibato forçado (que durou pouco tempo), a ausência de prazer (que talvez exista se existir ausência de sofrimento), a ausência de emoções (que só é possível se não nos identificarmos – de todo – com a realidade que nos é apresentada), o vegetarianismo (que não é de todo possível se nos alimentamos através de compras feitas em hiper-mercados e se não existir um diagnóstico profundo e um estudo exaustivo sobre o que comer, quando comer, que quantidades comer e porque comer) ou qualquer outra “coisa” que qualquer um desses seres (supostamente) nos aconselhou a fazer ao longo dos tempos me iria levar à libertação que procurava.

Sem perceber, fui-me perdendo na arrogância e futilidade espiritual pois não encontrava princípios e valores semelhantes em ninguém à minha volta. Fui elevando os meus padrões do que julgava ser o correto de forma tão elevada que as únicas “coisas” que verdadeiramente desenvolvi foram frustração, insatisfação, revolta, descrença em mim e nos outros e separação de mim próprio e da realidade que me estava a ser mostrada.

Estava a tentar seguir um caminho que outrora teria servido a alguém mas que não era o meu e não percebia porque não estava a conseguir sentir-me cada vez melhor, cada vez mais leve e cada vez mais livre.

Somos seres espirituais a viver uma experiência humana

Já ouvia esta frase há uns anos e não imaginava que seria um marco importante na minha transformação. Houve um dia que esta frase me tocou por dentro e aí percebi que tudo o que existe no Yin/matéria (gases, líquidos, minerais, plantas, animais, humanos) existe também no Yang/intangível.

Isso significou para mim que tudo o que existe é, individualmente, algo com a sua própria verdade, experienciando aquilo que necessita para aprender mais um pouco sobre si e sobre o que o rodeia e isso levou-me à grande conclusão de que não existe o correto e o errado, pois isso depende da bagagem e interpretação de cada ser face a cada assunto onde estamos focados.

Custou-me bastante desprender dos pré-conceitos que construí acerca do que é necessário para viver uma vida espiritual mas essa foi uma das grandes libertações que vivenciei. Ao longo desta viagem comecei a tornar-me cada vez mais consciente (e este caminho não tem fim) de mim, dos outros e da realidade em si e tenho percebido que isso é o sumo mais valioso que cada um pode espremer de uma exploração mundana e/ou espiritual.

 

Iluminação VS Realização Pessoal

Devido ao estudo que fui desenvolvendo tornei-me extremamente exigente com o conceito de Iluminação. Textos sagrados da antiguidade falam na vida de homens e mulheres santos, com poderes mediúnicos super apurados e limpos, sem opinião própria e inteiramente dedicados ao serviço da humanidade sendo que este seria o último estágio do ser humano como se fosse um pré-requisito para o serviço pós-vida.

Até então tem sido interessante reconhecer certos aspectos de personalidade em gurus, mestres (principalmente os tão conhecidos mestres de reiki ou de outras terapias cujo o último nível da mesma te pode dar o título de Mestre), monges, padres, bispos, médiuns e quaisquer outros seres que estão a fazer trabalhos diretamente com a consciência que reconheço também em mim.

Há trabalhos incrivelmente bonitos e outros incrivelmente disfarçados de bonitos mas ainda não encontrei a iluminação que sinto ser possível talvez porque, na minha limitada e exigente forma de ver as coisas, a iluminação requer o abandono do eu, o abandono da satisfação e vontade pessoal, o abandono de contratos com seres espirituais e/ou desencarnados como as conhecidas canalizações ou outras práticas e outros tantos abandonos.

A iluminação, principalmente na altura em que embrulhei na novela sobre a vida de Siddhartha e Yeshua, era algo que eu queria muito vivenciar. Não pelos super-poderes mas por ressoar em mim uma vontade louca de abandonar a minha mísera vontade individual, alinhar-me com os propósitos de libertação coletiva e servir, servir e servir.

Quando percebi que a iluminação é uma consequência de todos os abandonos (sendo que estou embrulhado nas minhas vontades, desejos, medos e temores) comecei a focar-me na minha realização pessoal pois estava mais do que visto que a iluminação não é para aqueles que a querem, a procuram ou a desejam.

Será necessário realizar-me enquanto ser humano, enquanto homem, enquanto João, enquanto filho, enquanto irmão, enquanto amigo, enquanto companheiro, enquanto pai, enquanto profissional. Apenas e só depois dessa realização pessoal posso abandonar o Eu – o pessoal – e quem sabe ser tocado e contagiado por essa libertação a que muitos chamam de iluminação.

A frustração da não-iluminação durou pouco tempo pois logo surgiu uma gargalhada interna que me disse: tudo está certo e tudo necessita de ser transformado rumo à libertação de toda a cegueira.

Duas dicas para ter tornares num ser cada vez mais Consciente

1# Ser eu próprio

Ultimamente, este é um dos pontos onde me tenho focado mais tanto no meu trabalho comigo próprio como nos workshops, retiros e consultas que facilito. Percebi que tentar ser algo ou alguém que não sou é uma perda de tempo e não me favorece em nada.

Foi algo difícil de admitir para mim próprio devido a tudo o que aprendi desde que nasci com os meus familiares, professores, amigos, familiares de amigos, conhecidos e desconhecidos quase sempre embebidos em obsoletas egrégoras religiosas, ateístas ou pseudo-científicas.

Ser eu próprio implica libertar-me de tudo aquilo que fui e vou reprimindo de forma a libertar-me dessas sombras que diariamente faço crescer em mim. Aquilo que posso ou não posso fazer, o que devo ou não devo fazer, o que necessito ou não de fazer de nada importa. O importante é restabelecer a conexão profunda comigo (com o meu Eu Superior) e isso apenas se pode concretizar se eu for livre para me ouvir (ouvir o meu coração). Isso é o que me trará a sensação de que estou constantemente no sítio certo, à hora certa e no momento exato (viver o agora) e que muitos consideram ser a Felicidade.
Apenas e só depois de me libertar de tudo o que me impede de ser eu próprio é que posso, harmoniosamente, experienciar o passo seguinte: servir ao invés de ser servido.

2# Perder o interesse em ser servido

No meio de tantas carências, traumas, insatisfações e peças do puzzle perdidas na história individual de cada um, é muito comum usarmos e abusarmos de nós, dos outros e da natureza em todas as suas dimensões.

Devido a todas essas nossas fragilidades direcionamos as nossas ações, crenças, trabalhos e vida no geral para nos servirmos, mesmo quando não sabemos o que nos faz falta (por vezes as lacunas em nós são tão profundas que a nossa mente consciente decide apagar esses registos).

Como podemos ter um benéfico, harmonioso e transformador impacto no mundo se usamos o nosso tempo para servir a nossa mediocridade? Não quero com isto dizer que não é possível ajudarmos o próximo, uma planta, um recurso ou um animal sem nos colocarmos antes num pedestal como se fossemos o ator principal da história.

Isso é o que mais há no mundo dos terapeutas (holísticos e não-holísticos), facilitadores de processos internos individuais ou colectivos de desenvolvimento pessoal e espiritual e, ainda assim, o trabalho continua a ser feito.

Contudo, perder o interesse em ser servido coloca essa pessoa automaticamente num papel de servir. Este serviço que falo não significa que estaremos num papel de servir as necessidades do próximo. Como referi atrás, necessitamos primeiramente de nos libertar das nossas sombras para que possamos escutar a única voz que existe. Podes chamar-lhe a voz de Deus, a voz do Coração ou outra coisa qualquer. Quando a ouvires saberás que não existe para te servir mas sim para se servir a si própria.

Finalizando

A Consciência é algo subtil e as interferências são inúmeras tanto na 3ª dimensão (plano físico) como em todas as dimensões onde a realidade se sustém. Procura autenticidade, simplicidade, veracidade e isso só encontrarás na vulnerabilidade. Não te preocupes em ser algo que não és, não procures disfarçar o ódio que sentes com palavras bonitas e acima de tudo não te permitas enganar a ti próprio. Sê feliz e transforma e contagia tudo a tua volta.

Juntos faremos um trabalho incrível!


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Espero-te bem,

João

2 Responses

  1. Margarida

    De todos os textos que aqui li, este tocou-me profundamente.Nada retiro e nada tenho a acrescentar. Concordo em pleno com tudo o que acabei de lêr. Quando começamos a explorar o nosso estado de consciência, a nossa busca pelo bem e, por tudo o que é espiritual, podemos ficar muito confusos com tudo o que nos vai aparecendo. Surgem muitas dúvidas e, a vontade de querer saber cada vez mais faz-nos parecer que o túnel nunca mais tem fim…Com o tempo, as nossas incertezas e as armadilhas que a vida coloca nesta caminhada, ensinam que tudo o que nos vai acontecendo de bom ou de menos bom, são sempre aprendizagens…Nada do que nos acontece é por acaso.
    Muita luz e boas energias
    Grata

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